Caminhos de São Paulo
Ultimamente tenho recebido diversos panfletos de propaganda de imóveis, e nestes panfletos existem mapas que auxiliam a chegada ao local. Até ai, tudo normal. Porém nestes mapas aparecem, em destaque, diversos pontos de interesse nas proximidades do empreendimento. Nada muito anormal também, já que existe a necessidade de enfatizar a qualidade de vida que se terá, caso adiquira tal imóvel.
Em outro tipo de propaganda, como guias para turistas, este tipo de coisa também aparece com frequência, ressaltando bares, boates e locais de interesse. Novamente, tentando atingir o objetivo do material publicitário com propriedade.
Eu, neste ensaio experimental, tomei como idéia central este tipo de ênfase utilizada, porém para ressaltar algo que normalmente a gente (finge que) não vê, a pobreza de nossa cidade, enfatizada pelos pontos de interesse que existem no trajeto utilizado. Para isso, me apoiei em um caminho que conheço relativamente bem: o trajeto de meu escritório, no Butantã, até minha casa, nas imediações de Santana.
Desta forma, apresento agora minha peça publicitária, com a devida descrição dos pontos de (não) interesse:
Logo no início do trajeto, o que significa o final de uma das principais estradas que liga o interior a São Paulo, a Rodovia Raposo Tavares, já podemos notar um ato de grande disseminação na cidade de São Paulo, o “vendedor de balinhas”…
Esse tipo de “negócio” é espantoso, e a quantidade de pessoas que “trabalham” nisso é de assustar. Porém, para quem não é da cidade, é de assustar por outros motivos, já que a possibilidade de ser assaltado por um “pseudo” trabalhador não deixa de ser uma realidade constante por aqui.
E já na esquina seguinte, me deparo com um “trabalhador informal” exausto pelo serviço do dia.
Continuando, passo pela principal avenida que dá acesso a, também principal, universidade de São Paulo, USP, onde, mesmo sem dar muita atenção, não é possível deixar de ver uma quantidade enorme de “trabalhadoras da noite”, que, entretanto trabalham “duro” durante todo o dia, (e com o devido pudor que lhes é peculiar)
e com algumas famílias(que por sorte ou injuria não estavam neste momento), que, como na maioria das vezes, se instalam em praças públicas, porém o olhar atento dos governantes não os vê, devido a miopia avançada que os aflige.
Mas o trabalho continua e, como a oportunidade é a dona da razão, nestes dias de chuva nada mais sensato que auxiliar os motoristas com uma necessidade básica, limpadores de para-brisa.
Alguns dias, mudo meu caminho devido a compromissos na própria universidade, e por força do desvio, me utilizo da Gastão Vidigal. Mais uma vez, uma figura já conhecida desta paisagem (quando nos forçamos a enxergar), está presente, pedido o auxilio de quem passa, já com poucas esperanças de que será notado.
Mais a frente, já em uma das principais avenidas do bairro de alto padrão, Alto de Pinheiros, encontramos um dos mais velhos moradores desta região.
Porém, pelo que me parece, os governantes, aflitos por sua falta de visão, já estão preparando um ato de reintegração de posse deste pequeno espaço utilizado no canteiro central. E, como sempre, desalojando os já desalojados, e os enviando para sei lá aonde.
Porém, indiferente ao que acontece a sua volta, continua mantendo seu “lar”, e prepara algo (realmente algo!!!) para comer.
E na frente de um dos lugares mais badalados da região, enquanto o movimento dos bêbados noturnos não se inicia, vemos que outros destes, porém diurnos, descansam calmamente, sem se quer se perturbarem com a intromissão.
Já dentro de um dos bairros mais boêmios de São Paulo, Vila Madalena, podemos ver o contraste entre os visitantes, e os moradores. Em uma das ruas principais, Inácio Pereira da Rocha, encontramos a residência de outros “trabalhadores de rua”, que se beneficiam de nossa negligência, ao não nos preocuparmos com o lixo que atiramos a esmo, os catadores de “lixo reciclável”.
E durante o percurso, notamos que alguns, com “melhores condições de vida”, se aproveitam de um equipamento mais potente para arrecadar uma quantidade maior de matéria prima.
Mais acima, no início da Av. Sumaré, estão os “famosos” limpadores de vidro, e, em um dia de sorte, podemos encontrar também alguns malabaristas!!! Porém, “azarado” que sou, a chuva impediu suas presenças.
Já no final do trajeto, pelo menos no final de pontos importantes da cidade, encontramos com os vendedores de “alguma coisa”, porque tudo depende da época do ano e da mercadoria que lhes é “oferecida” para trabalharem a venda. Neste ponto pode-se encontrar frutas, o famoso chocolate Sulflair (que pelo que me parece é o top de vendas em semáforos!!!), alguns mapas (não sei da onde, nem tão pouco se são reais) dentre outras bugigangas.
Claro que, como em quase todas as praças, podemos encontrar famílias reunidas ao final do dia, contando os centavos arrecadados por seus filhos “escravizados” enquanto descansam a sombra de uma árvore. (e como ainda era cedo, as pobres crianças ainda não haviam voltado)
Já faz tempo que chego em casa no fim de um dia de trabalho com uma grande vontade de escrever sobre isso, porém a falta de coragem de andar com a máquina exposta me fizeram esperar tanto tempo.
Divulguem, complementem, etc… Acho importante não nos tornarmos tão míopes quanto nossos governantes e continuarmos a notar tais fatos em nossa cidade!!
Veja no mapa a baixo a localização de alguma das fotos:
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Olá,
seu link foi adicionado no nosso blog também.
Bjs
Feijão com Nutella
Feijão com Nutella
janeiro 21, 2009 em 2:05 pm
Obrigado!!
agrj
janeiro 21, 2009 em 2:13 pm
Muito 10 a visão social e as fotos de uma São Paulo para a qual fechamos sempre nossos olhos. Quem sabe outros te seguem e documentam outros bairros de São Paulo, pois as cenas se repetem.
pilar
janeiro 22, 2009 em 12:26 pm
Opa! Muito interessante mesmo esse trabalho com fotos e tal. Ficou muito bom.
Também escrevo algumas coisas.
Te adicionei no meu blog.
Valeu pela atitude!
krikarocha.
krikarocha
fevereiro 4, 2009 em 11:34 am
Excelente trabalho. Sensibilidade aguçada para enxergar os subterrâneos da sociedade.
Reinaldo
fevereiro 4, 2009 em 4:43 pm
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Cidade maravilhosa - Leis que “pegam”!!! « Agrj’s Blog
fevereiro 26, 2009 em 3:40 pm